Brasil e Alemanha debatem parceria estratégica em Hannover

CNI defende dobrar intercâmbio comercial nos próximos cinco anos e propõe projeto-piloto em biocombustíveis

Representantes dos governos e das indústrias do Brasil e da Alemanha se reuniram neste domingo (19) na 52ª Comissão Mista de Cooperação Econômica Brasil-Alemanha (Comista), em Hannover, para avançar na agenda bilateral. Entre os temas centrais do encontro estiveram a aplicação provisória do Acordo Mercosul-UE, o Acordo para Evitar a Dupla Tributação (ADT) entre os dois países e iniciativas voltadas à digitalização, inteligência artificial, descarbonização e biocombustíveis.

A reunião integra a programação estratégica da Hannover Messe, a maior feira de tecnologia industrial do mundo. Para a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o momento exige ambição: a entidade defende dobrar o comércio bilateral — que já superou US$ 20 bilhões — nos próximos cinco anos.

Brasil quer ser mais do que fornecedor de insumos

O presidente da CNI, Ricardo Alban, defendeu que o Brasil tem condições de se consolidar como parceiro estratégico da Alemanha no atual cenário global, apoiado em previsibilidade, estabilidade democrática e segurança energética. Mas fez um alerta: a relação econômica ainda fica aquém do potencial e precisa avançar com resultados concretos.

Alban foi enfático ao afirmar que o Brasil não busca o papel de mero fornecedor de commodities. “Não pretendemos ser apenas fornecedores de insumos, mas parceiros na agregação de valor e no desenvolvimento tecnológico”, disse. Nesse contexto, destacou a matriz energética brasileira como diferencial para a descarbonização industrial europeia e propôs uma iniciativa prática: “Propomos o desenvolvimento de um projeto-piloto entre Brasil e Alemanha em biocombustíveis que permita uma avaliação qualitativa do potencial desse tipo de parceria.”

O dirigente também ressaltou o uso de fontes diversificadas e sustentáveis, como o etanol de milho e o etanol de agave, como forma de reduzir preocupações europeias relacionadas ao desmatamento.

Bitributação trava investimentos

Outro ponto de atenção levantado pela delegação brasileira foi a ausência de um acordo de bitributação entre os dois países, apontada como um dos principais entraves à expansão dos investimentos. Segundo Alban, o nó das negociações está no tratamento dos serviços técnicos, e a simplificação e padronização das regras são fundamentais para destravar o entendimento.

O presidente da CNI também convocou os dois lados a aproveitarem a janela de oportunidade aberta pelo acordo Mercosul-UE e pela reorganização das cadeias globais. “Se não avançarmos agora, perderemos tempo e a chance de aumentar a competitividade”, alertou.

A pauta incluiu ainda medidas de eficiência regulatória, redução da burocracia, ajustes tarifários, cooperação em agronegócio, inovação, apoio a micro, pequenas e médias empresas e acesso a mercados.

Delegação recorde na Hannover Messe

Participaram da Comista o secretário de Estado parlamentar do Ministério da Economia e Energia da Alemanha, Stefan Rouenhoff; o presidente do Comitê da Economia Alemã para a América Latina (LADW), Thomas Schmall; a vice-ministra das Relações Exteriores do Brasil, embaixadora Maria Laura da Rocha; e o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, entre outros representantes dos setores público e privado.

Para esta edição da feira, a missão empresarial liderada pela CNI em parceria com a ApexBrasil levou mais de 260 representantes da indústria brasileira — número recorde. O grupo permanece em Hannover até 24 de abril e participa nesta segunda-feira (20) do 42º Encontro Econômico Brasil-Alemanha (EEBA), principal fórum bilateral do setor produtivo, com expectativa de reunir mais de 800 participantes. A programação inclui ainda reuniões de negócios, mesas redondas e visitas a empresas como Airbus, Mercedes-Benz e Volkswagen.

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